Que fim têm as palavras lançadas ao mar dos mais profundos sentimentos de saudade, de luto e de busca pela proximidade por aquilo e aqueles que não mais atemos? São estas e outras as experiências partilhadas por aqueles que partem de sua cidade natal para viver em terras longínquas, reverberadas aqui na leitura de cartas do início do século XX, manuscritas por imigrantes portuguesas no Brasil.
Inspirada pelo percurso traçado por uma das mulheres do Palácio Iglésias, foco de investigação do PdBA Lisboa, a artista e cineasta Luisa Mello propõe em Palavras ao Mar uma reflexão sobre a imigração portuguesa e, em particular, de suas mulheres que cruzaram o Atlântico em busca de melhores condições de vida. Partindo de sua própria experiência como imigrante e descendente de portugueses no Brasil, Mello convida-nos a nos reconectar com o contexto migratório atual de Portugal através das vozes múltiplas que ecoam aqui e afora.
Luisa Mello é cineasta e artista visual baseada em Lisboa. Doutoranda em Artes Performativas e da Imagem em Movimento, desenvolve projetos entre cinema, artes visuais e práticas coletivas, explorando formas expandidas do documentário e da imagem em movimento.
Curadoria
Lia Carreira
Design e Desenvolvimento de Exposição
Rafael Gonçalves
Material iconográfico
Arquivo Público do Estado de São Paulo
Obra referenciada
José Ferraz de Almeida Júnior
Saudade, 1899
Esta obra e exposição é composta pelo material arquivístico coletado pelo projeto ‘Cartas de Chamada: Banco de Dados dos escritos de imigração para o Brasil entre (1911-1927)’, do Arquivo Público do Estado de São Paulo e da Universidade Federal da Bahia, sob coordenação de Alícia Duhá Lose e investigação de Ana Carolina da Silveira Leite, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) Brasileiro, aos quais somos gratos pela cedência e apoio.
Nosso muito obrigado às mulheres que contribuíram e compuseram esta obra, seja por meio da sua narração em voz, seja pela partilha de suas trajetórias de migração.
Palavras ao Mar faz parte da programação do PdBA Lisboa de 2026, Infraestruturas Invisíveis, realizada com apoio da República Portuguesa - Cultura I Direção-Geral das Artes.
What becomes of the words cast towards the sea, carrying the deepest feelings of longing, mourning, and the search for closeness to those and that which we no longer hold? These and other experiences are shared by those who leave their birthplace to live in distant lands, echoed here through the reading of letters from the early 20th century handwritten by Portuguese immigrants in Brazil.
Inspired by the journey of one of the women from the Iglésias Palace, the research focus of the PdBA Lisboa, artist and filmmaker Luisa Mello proposes in Palavras ao Mar [Words at Sea] a reflection on Portuguese migration and, in particular, on the women who crossed the Atlantic in search of a better life. Drawing from her own experience as an immigrant and descendant of Portuguese migrants in Brazil, Mello invites us to reconnect with the current migratory context in Portugal through the many voices echoed here and away.
Luisa Mello is a Lisbon-based filmmaker and visual artist. A PhD candidate in Performing Arts and Moving Image, her practice moves between cinema, visual arts, and collective processes, exploring expanded forms of documentary and moving image.
Curator
Lia Carreira
Exhibition Designer and Developer
Rafael Gonçalves
Voice over
Ana Vilela da Costa, Clara Jost, Filipa Pina, Ivone Fernandes-Jesus, Leonor Batista, Leonor Noivo, Maria Batista, Maria Leite, Marta Sousa Ribeiro, Sofia Dinger, Violeta Mandillo
Iconographic material
Arquivo Público do Estado de São Paulo
Referenced Work
José Ferraz de Almeida Júnior
Saudade, 1899
This work and exhibition is composed of archival material collected by the project ‘Cartas de Chamada: Banco de Dados dos escritos de imigração para o Brasil entre (1911-1927)’, from the Public Archive of the State of São Paulo and the Federal University of Bahia, under the coordination of Alícia Duhá Lose and research by Ana Carolina da Silveira Leite, funded by the Brazilian National Council for Scientific and Technological Development (CNPq), to whom we are grateful for the granting of access and support.
Our deepest gratitude to the women who contributed to and composed this work, whether through their voice narration or through their shared migration journeys.
Palavras ao Mar [Words at Sea] is part of the PdBA Lisboa 2026 program, Invisible Infrastructures, carried out with the support of the Portuguese Republic - Culture | Directorate-General for the Arts.
Esta obra é melhor experienciada no computador e com o uso de auscultadores.
10 de Maio 1919
São Paulo, BR
Descrição da carta...
26 de Julho 1918
Rio Grande do Sul, BR
Meu querido pai, quero lhe contar que me casei no dia vinte e cinco com o Cândido de Souza Gomes. Melhor marido não podia ser. Ele é muito bom moço para mim. Até foi uma sorte, porque agora estou amparada e deixei de andar desamparada longe de meus pais.
29 de Julho de 1912
São Paulo, BR
Minha querida mãe, essas coisas que tem por aí, venda-as ou faça delas o que quiser, porque logo que vier para o pé de mim já não precisa delas. Venha sem receio nenhum e venha já depressa, porque aqui não lhe falta que fazer, nem de comer.
14 de setembro de 1912
São Paulo, BR
Eu peço-lhe, por alma da minha carinhosa mãe, que me declare tudo como foi a morte dela: se vossa mercê estava em casa, ou se tinha ido à praça, ou se tinha ido fazer alguma viagem. Se foram dar com ela morta, sem ter quem lhe chegasse uma pinga de água na hora da sua morte.
16 de janeiro 1912
São Paulo, BR
Mamãe vai encontrar aqui muita tristeza e muita coisa que não espera. Esse era o principal motivo por que eu não queria que mamãe viesse sofrer junto conosco. Por maior que seja a alegria de nos vermos outra vez, as decepções serão muito maiores.
7 de Setembro 1912
São Paulo, BR
Do que tenho em casa do tio José Lopes, traz a roupa que estiver boa. A que não estiver, dá aos pobres por alma dos nossos pais. Eu queria que me comprasses aí uma colcha de lã de felpa, da cor que a madrinha preferir. Mano, no fim deste mês aqui te mandaremos as passagens para ti e para o meu sogro.
20 de fevereiro, 2026
Lisboa, PT
Eu me deparei por acaso com o seu documento de imigração, emitido pela República dos Estados Unidos do Brasil. Foi a primeira vez que coloquei os olhos em um visto de residência de um imigrante português.
15 de janeiro de 1914
São Paulo, BR
A sua última carta trouxe-me alento. Vivo sempre na expectativa de notícias de Portugal e, principalmente, suas. Desejo que me seja possível receber do senhor as mais longas e satisfatórias informações, para não viver um tanto sobressaltada por estar tão longe.
20 de Setembro 1913
São Paulo, BR
Minha querida mãe, vossa mercê não tenha medo do vapor. O navio é como uma casa, com bons quartos e lugar para se distrair. Vossa mercê não vem para trabalhar, é para estar em casa. E, se quiser voltar, pode. Aqui estamos muito fartos: temos vacas, dois bois, porcos e bastantes galinhas e frangos, mais do que aí tínhamos.
30 de março de 1922
São Paulo, BR
Querido vovô, em primeiro lugar espero que estas poucas linhas encontrem o meu querido vovô gozando saúde. Nós estamos todos bem de saúde. Leny está muito levada , ela já está andando. Sylvia está na escola, com muita vontade de estudar. Nair sempre fala do senhor e pergunta quando o senhor vem.
5 de Maio de 1913
São Paulo, BR
Aqui estou vivendo com os maiores amigos. Mesmo assim tenho que andar debaixo do pé deles, porque é triste quem aqui não tem ninguém. Custa-me muito aguentar a saudade da senhora, assim como a senhora deve sentir o mesmo por mim, porque é minha mãe. Se me tem alguma amizade, venha sem demora.
8 de Abril de 1924
Vou indo regular, sempre acanhada por ter estado morando em casa dos outros. Por isso não tinha muito sossego, porque não estava à minha vontade. Você sabe muito bem o meu gênio: não sei morar em casa dos outros. Embora passe bem, não tenho a minha liberdade.